Sobre desconforto


Você sente uma pressão constante por resultados? Sente que está sempre ficando para trás e precisa mostrar a perfeição para se destacar?

Vivemos em uma sociedade regida pela escassez, uma cultura de nunca conseguir ser bom o bastante. Romper com esse sistema exige muita consciência, compromisso todos os dias e, principalmente, exige entendimento para escolher lutar pelo o que acreditamos.

E lutar pelo o que acreditamos nos coloca numa posição que nenhum de nós quer estar. A maioria das pessoas passa a vida inteira se esquivando de situações de vulnerabilidade, exatamente porque a sociedade impôs que a vergonha, o erro e, consequentemente, a vulnerabilidade é algo ruim. Sentir é estar vulnerável. Como diz Brené Brown, pesquisadora e autora de diversos livros sobre coragem e vulnerabilidade, “Verdade e coragem nem sempre são confortáveis, mas nunca são fraquezas”.

Construímos sistemas de métricas, padrões, avaliações e, desde a escola até o trabalho, tentamos nos encaixar nesses padrões, nos sair bem nas avaliações, porque queremos pertencer, nos conectar com as pessoas. Nos expor, errar, passar vergonha definitivamente não é algo que procuramos. E, de acordo com Brené, a coragem vem justamente quando você permite se colocar nessas situações e, muitas das vezes, é quando você está no seu momento mais vulnerável que consegue a empatia e a força que precisa.

Ela também afirma que é vivendo pequenos momentos de desconforto que continuamos em movimento e vencer não é sempre chegar ao topo com toda a glória e poder. Muitas vezes nos encontramos em momentos de angústia e não nos damos sequer chance de pensar sobre a razão disso, justamente pelo medo de dar de cara com nossa vulnerabilidade e nossos fracassos. Ao escolher viver corajosamente e fora da zona de conforto, vamos encontrar também o sofrimento e isso não é ruim, muito pelo contrário, é isso que nos dá o direito de ser quem somos.

E isso lembra outra coisa — vulnerabilidade sem limites não é vulnerabilidade. A verdadeira vulnerabilidade é deixar que nos vejam na nossa essência, na nossa forma verdadeira, mas isso não significa que precisamos nos expor nas redes sociais por aí para sermos vulneráveis. Porque vulnerabilidade se baseia na troca e requer confiança. E isso só deve acontecer com as pessoas que conquistaram essa confiança.

Falamos muito sobre erro, de estarmos abertos para errar, como as relações precisam de confiança e abertura para criarmos uma cultura baseada no aprendizado, que promove a criatividade e a descoberta de novas possibilidades. Mas tudo isso leva a sentimentos que lutamos contra todos os dias. Vergonha é algo que todos nós sentimos, sem exceção. E sentimos medo de falar sobre isso.

“Se você quer implantar uma cultura de criatividade e renovação, em que riscos concretos têm que ser assumidos tanto em nível coletivo quanto individual, comece por desenvolver nos gerentes a capacidade de estimular a vulnerabilidade em suas equipes. E talvez isso exija que eles próprios estejam vulneráveis primeiro. Este conceito de que o líder precisa estar “no comando” e “ter todas as respostas” é ultrapassado e paralisante. Ele causa um impacto prejudicial sobre as pessoas ao arraigar a ideia de que elas sabem bem menos e são inferiores. E a receita para o fracasso é: a vergonha se transforma em medo; o medo conduz à aversão ao risco; a aversão ao risco aniquila a inovação.” (Peter Sheahan)

O primeiro passo para entendermos nossos mecanismos de defesa sempre será o autoconhecimento.

1. O que eu faço quando me sinto emocionalmente exposto?

2. Como me comporto quando me sinto desconfortável e inseguro?

3. Estou disposto a correr riscos emocionais?

Não temos o controle das coisas que vão acontecer, nossa única escolha é como vamos reagir.

Artigo escrito por Karina Ferreira e Alanis Mancini

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