Comunidade é o novo hype


Será que o Orkut vai voltar? A especulação sobre a volta da rede social deixou a internet em polvorosa e, ao analisar as postagens sobre o tema, foi possível perceber que a maior expectativa das pessoas é sobre o retorno das comunidades.

No final de 2021, o Twitter começou a testar a criação de comunidades na plataforma. As comunidades no Facebook continuam fazendo sucesso agregando pessoas em torno de temas em comum, associações de bairro, marketplace, grupos políticos que trouxeram sérios problemas nos últimos anos.


Participamos de diversos grupos no whatsapp e telegram que substituíram as listas de emails. Um dos grandes diferenciais evolutivos do Homo Sapiens é o senso de pertencimento, a possibilidade de caçar, viver e trocar conhecimentos em torno da fogueira criando redes de sociabilidade. O homem é o único animal que fica doente e não é abandonado pelo bando. A comunidade o ajuda. Associações, confrarias e clubes foram formas das pessoas se associarem em torno de interesses em comum. A Era digital permitiu que comunidades fossem criadas seguindo a mais pura definição do conceito: a reunião de 3 ou mais pessoas onde há valores e interesses compartilhados para que atinjam um objetivo em comum através da troca, da construção coletiva e do sentimento de pertencimento, somado à possibilidade de se conectar com pessoas que não estão fisicamente próximas.


Mas a Era digital acelerou também a obsolescência programada, gerando um ciclo de vida de produtos conhecido como publicidade, crédito (hype) e declínio, criando modas em torno de produtos encapsulados para resolver os problemas ou para aproveitar oportunidades em cima de dores e faltas inerentes aos seres humanos. Esse movimento se espalha para todas as áreas e, é claro, os RHs não ficam de fora das modas e soluções fáceis para atender a essa “fatia de mercado”.


Coaching, Propósito, Mindfulness, Gestão Ágil são alguns temas entre tantos outros que eu aposto que todo mundo que trabalha em empresa já ouviu falar ou participou de algum treinamento a respeito. De repente surge um novo tema, método revolucionário que, agora sim, vai resolver todos os problemas de gestão, processos e cultura organizacional que não foram resolvidos na moda anterior. Livros, palestras e treinamentos prontos são oferecidos nas prateleiras das livrarias de aeroportos e consultorias como um novo shake milagroso de emagrecimento. E tal, como os shakes, não funcionam. E esse produtos servem para cumprir o seu destino da obsolescência programada , não existem para funcionar, existem para vender! Se funcionassem, como seria possível criar um novo best seller?



Mas ao contrário dos shakes que não funcionam, esses temas foram despidos da sua função, de sua área de estudo, de aplicações possíveis e que poderiam trazer transformação para ir à prateleira. E dessa vez, teremos as comunidades sendo vendidas no supermercado do Treinamento e Desenvolvimento e será esvaziado como o Coaching foi, pois comunidade virou o queridinho dos produtores de conteúdo e influenciadores também.


Se você ainda não encontrou uma comunidade sendo vendida, se prepare: em breve, um influenciador vai te oferecer uma comunidade onde seus membros pagam um valor mensal (e tudo bem cobrar, pois moderar comunidade custa, não se trata disso) após serem convencidos por uma comunicação que fala em troca e construção colaborativa, porém, continua sendo uma via de mão única, onde o emissor (influenciador, comunicador) envia conteúdos em um ou mais formatos para consumo de seus membros. Talvez, alguns deles abram uma live ou outra para que as pessoas possam fazer perguntas, e na fase decrescente do ciclo de vida desse produto, o conceito de comunidade provavelmente será cancelado nas redes sociais, e os termos que foram vendidos como “benefício” do produto - troca, colaboração e construção coletiva - será desacreditado.


Nós queremos quebrar esse ciclo. Não queremos vender a comunidade como enlatado porque sabemos que ela está no cerne do senso de pertencimento e é fundamental para criar cultura de aprendizagem, se aplicada no seu conceito primordial e for inserida dentro do contexto cultural de um determinado lugar, e não é diferente nas organizações.


Provavelmente você deve fazer parte de uma comunidade na sua vida pessoal, mesmo não sendo de forma estruturada. Eu sou montanhista, faço parte de uma comunidade de amigos que são montanhistas e escaladores. Nesse espaço, combinamos escaladas, viagens, trocamos sonhos e projetos em comum, encontramos parcerias, trocamos informações sobre destinos, equipamentos, práticas, portanto, aprendemos juntos. Imagina um espaço estruturado, seguro e acolhedor onde você pode trocar experiências, desafios e projetos com pessoas que trabalham na mesma empresa ou em outras empresas, mas na mesma área que você? O quão rico e cheio de possibilidades isso poderia ser? Como podemos estruturar uma comunidade que seja uma ágora, um espaço de troca verdadeira e discordância ao invés de uma via de mão única e que seja o oposto de um campo

de batalha, tal qual fomos treinados pelos algoritmos das redes sociais privadas? Para isso o senso de comunidade precisa estar presente, o autoconhecimento deve ser um trabalho diário, comunidades menores em torno de objetivos em comum propiciam a educação de convivência nesses espaços. Tem jeito, sabemos como fazer.


A gente sabe que a moda virá, ela irá passar e continuaremos aqui sentadas em torno da nossa fogueira trocando aprendizados e esperando por você.


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